PLACTS

Pensamento Latino-Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade

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Atualizado em: 05/02/2007

PLACTS

PLACTS - Pensamento Latino-Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade - foi um movimento surgido na década de 60, de forma contemporânea a um movimento intelectual mais amplo de desenvolvimentismo e contestação da dominação cultural do pós-Guerra.

Em sua essência, o PLACTS contestava a visão do "modelo linear de inovação", segundo o qual toda inovação tecnológica segue um padrão (pattern) mais ou menos bem definido de descoberta científica - incorporação desse conhecimento ao acervo humano - desenvolvimento de produtos. O modelo linear de inovação não leva em conta os fatores sociais que levam ao desenvolvimento de determinadas soluções em detrimento de outras, nem o fato de que essas opções possuem, via de regra, forte viés econômico e/ou político.

Ao observar que as inovações tecnológicas não são socialmente neutras, o PLACTS chamava a atenção para outro fato grave: o de que a suposta e festejada "transferência (importação) da tecnologia" que se fazia à época, de forma acrítica, trazia, nos artefatos, uma série de características culturais, muitas vezes estranhas às culturas locais. Era como se estivéssemos importanto plantas que, em vez de contribuírem para a melhoria de nossa flora, promoveriam a sua devastação, mudando os hábitos e indiretamente favorecendo determinados grupos sociais em detrimento de outros.

Passados 40 anos, os questionamentos originais do PLACTS são perturbadoramente atuais. É verdade que temos hoje um acervo cultural maior, especialmente enriquecidos por uma série de estudos em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) desenvolvidos nesse entremeio - alguns dos quais citamos abaixo - abordando questões como o mito da neutralidade da C&T, a construção social da ciência, os valores subjacentes e as controvérsias.

Mas também é verdade que hoje, mais de 40 anos depois, as questões fundamentais ainda não foram respondidas: "Porque a América Latina tem dificuldades em desenvolver ciência e tecnologia?" "Porque continuamos a depender tão fortemente da ciência e tecnologia desenvolvida nos países cêntricos?"

Essas questões nos motivaram a tentar resgatar esse debate. Não é nossa intenção nos apropriarmos da sigla "PLACTS", que é tão cara a tantos colegas nossos. Talvez esse site devesse se chamar "PLACTS-2". Mas por ora, deixemos essa questão de lado e voltemos a nossa atenção para essa fascinante discussão acerca da CT & S na América Latina...


Textos selecionados

Networks of Power
Thomas P. HUGHES, 1983.
Networks of Power. Electrification in Western Society 1880-1930. John Hopkins University Press, Baltimore e Londres, (1983) 1993, 3ª Edição.
Nesta extensa obra, Hughes esmiuça um dos capítulos mais fascinantes da construção de tecnologias: a batalha da corrente contínua versus corrente alternada, mostrando como uma diversidade de fatores técnicos, econômicos e sociais se entrelaçam até emergir uma tecnologia vencedora.
(Essa obra não está disponível na web)
Uma boa resenha por Nuno Luís Madureira está disponível em:
http://www.historia-energia.com/por2/conteudos_detalhe.asp?idConteudo=325.

Do Artifacts have Politics?
Langdon WINNER, 1986
http://www-personal.si.umich.edu/~rfrost/courses/Women+Tech/readings/Winner.html
Trata-se de um texto seminal que aborda um tema que passaria a ser polêmico: os artefatos (tecnológicos) possuem propriedades políticas?
Tradução de Fernando Manso para o português: "Artefatos têm política?"
http://geccom.incubadora.fapesp.br/portal/referencias/textos/langdon-winner/artefatos-tem-politica-langdon-winner.pdf

The Social Construction of Facts and Artefacts: Or How the Sociology of Science and the Sociology of Technology Might Benefit Each Other
Trevor PINCH & Wiebe BIJKER, 1987.
In Bijker, Wiebe E., Thomas P. Hughes, and Trevor J. Pinch, eds. The Social Construction of Technological Systems: New Directions in the Sociology and History of Technology. Cambridge, MA: MIT Press, 1987.
Neste texto seminal, Pinch e Bijker desfazem o mito de que a construção da tecnologia segue um modelo linear. Os autores analisam o caso da construção da bicicleta, no qual atores sociais, interesses e artefatos se misturam até resultar na bicicleta tal qual a conhecemos hoje.
(Esse texto não se encontra disponível na web)

Ciência em ação - como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora
Bruno LATOUR, 1987
LATOUR, B., Ciência em ação. São Paulo: Editora Unesp, 1999.
Latour adota uma outra abordagem: os "estudos de laboratório", ou uma análise de como os cientistas fazem ciência.
(Esse texto não se encontra disponível na web)

Subversive Rationalization: Technology, Power and Democracy
Andrew FEENBERG, 1992
First published in Inquiry, 35: 3 / 4, 1992. This paper appears as Chapter 1 of Technology and the Politics of Knowledge
http://www-rohan.sdsu.edu/faculty/feenberg/Subinq.htm
Neste texto, Feenberg critica a visão da "neutralidade da tecnologia" e o "determinismo tecnológico", e propõe uma abordagem ousada: a reinterpretação das tecnologias.
Tradução para o português por Anthony T. Gonçalves: "Racionalização Subversiva: Tecnologia, Poder e Democracia"
http://www.sfu.ca/~andrewf/demratport.doc

Tecnociência e os valores do Fórum Social Mundial
Hugh LACEY, 2002.
Neste texto, Lacey discute um aspecto pouco visível da construção da ciência e tecnologia: a incorporação de valores implicitamente assumidos pelos cientistas.
http://www.swarthmore.edu/Humanities/hlacey1/alternatives_(English).doc
O texto da web está em inglês. A versão em português está disponível somente em forma impressa, em: Isabel Maria Loureiro, Maria Elisa Cevasco & José Corrêa Leite (eds). O Espírito de Porto Alegre, pp. 123-147. Editora Paz e Terra 2002.

A Política Científica e Tecnológica Brasileira: Três enfoques teóricos, três projetos políticos
2004. Rafael DIAS & Renato DAGNINO
http://www.ocyt.org.co/esocite/Ponencias_ESOCITEPDF/1BRS027.pdf
Dias e Dagnino mapeiam as grandes linhas que caracterizaram o estudo crítico da Ciência e Tecnologia na América Latina e, em especial, no Brasil.